INTERCÂMBIO PARTE III – Trabalho no Exterior . . .

Se voce pensa que ganhar dinheiro morando em outro país é fácil, está muito enganado! Mas quem sabe, você tem mais sorte do que eu: só gastar e viajar menos!
 
Quando eu ainda estava no Brasil, ouvia muito as pessoas que fazem intercâmbio falando sobre sub-emprego. Achava esse termo muito estranho, mas quando cheguei a Dublin, soube na prática o que significa, vivenciei isto e acredito que cheguei até a um nível mais baixo ainda.
Cheguei por aqui numa época muito difícil. A recessão estava bem forte por aqui (início de 2009). E as empresas não estavam contratando. E, tão menos, pegando estrangeiros. Passei meus primeiros três meses sem nenhum tipo de trabalho que gerasse uma renda. Até que comecei a entregar uns panfletos de uma pizzaria de casa em casa (Domino’s, graças ao meu amigo Fernando Mocotó). Era um trabalho quase escravo. Éramos um grupo com mais ou menos 10 brasileiros, íamos de bairro em bairro em outra cidade, distante de Dublin, como Drogheda e/ou Dundalk.
Faça chuva ou faça sol, lá estava eu entregando os folhetos. Mas vi paisagens lindas.
Eu tinha que acordar umas 6 horas da manhã. Não é tão cedo, mas eram duas horas de viagem. Chegava lá por volta das 10h e em seguida saia pras ruas. Pegava no mínimo 500 folhetos, ou seja, eu teria que ir em 500 casas para acabar e ganhar 30 euros o dia, o equivalente a 100 reais. E uma vez ou outra conseguia entregar 750 para ganhar um pouco mais. E aí de você se deixasse mais de um em uma única casa ou jogasse fora. Sabe aquele ditado que mentira tem perna curta? O pessoal ligava para a pizzaria para dedurar seu trabalho mal feito. :p
Você pode pensar que 100 reais o dia pode ser suficiente. Mas para a Irlanda não é. Eu trabalhava cerca de 6 horas em pé, andando pelas ruas, com a mochila cheia, ás vezes até sob chuva ou neve. Comia lanche e se precisasse ir ao banheiro tinha que torcer para passar perto de um matinho ou algum estabelecimento que deixasse eu entrar e só usar o banheiro. Era direto, a não ser com a pausa para eu comer, super rápido e realmente era muito desgastante.
Apesar de ficar cheirando fritura, dava para sair e olhar o evento.
Depois de um mês entregando folhetos, consegui um freela (um bico) em uma tenda (trailler, barraquinha) de lanches, fazendo e vendendo hambúrgueres, salsicha e batata frita, em eventos, esportes ou shows. (Vi muitos jogos de rugby, futebol gaélico, assisti partes dos shows do The Eagles e Bruce Springsteen – ver vídeo). Como tinha muitos estrangeiros trabalhando, o dono do trailler só pagava 60 euros o dia, não importando o número de horas trabalhadas. Às vezes, eu saia no lucro, trabalhava só 6 horas. Mas ja teve eventos em que eu trabalhei 10 horas. A única vantagem é que eu comia muito e ainda levava para casa os lanches que sobravam. Mas só trabalhava uma vez a cada 15 dias ou às vezes 3/4 vezes por mês.
O salário mínimo na Irlanda, na época, era de 8,65 euros a hora. Legalmente, eu poderia trabalhar 20 horas por semana, porque eu era estudante. Mas, o problema maior na Irlanda é que você precisa pagar a moradia que não é tão barato assim. Pagava por mês em meu apartamento 250 euros, mais conta de energia elétrica que vem cerca de 20 euros o mês, deixar sobrar dinheiro para o ônibus e despesas com comida e higiene. Ou seja, quando eu trabalhava no trailler, se trabalhasse 4 vezes no mês, ganhava 240 euros, mal pagava o aluguel.

Mas graças à Deus, a Kay minha amiga e com muito esforço, depois de longos 5 meses, eu consegui um emprego de babá. Trabalhava 3 vezes por semana cuidando de duas criancas, um menino de seis anos e uma menininha de dois (a pronuncia do nome dela era Aifa, não lembro coo escreve e o nome dele não lembro). Fiquei assim por 4 meses. Ganhava 50 euros o dia. Mas aí a mãe indiana
que estava grávida, iria ficar em casa de licença maternidade e me dispensou. Ela até queria que eu voltasse depois… mas aí cuidar de três, sendo um recém-nascido achei meio demais.

Neste meu primeiro ano também trabalhei de babá olhando mais duas crianças (Nicole e Diego – venezuelanos) só que de vez em quando a noite, já fui “mulher-placa”, segurava placa em uma das ruas/calçadão mais movimentados de Dublin, Grafton Street e trabalhei como faxineira na casa de brasileiros. E depois de um primeiro ano conturbado, no limite, ainda assim consegui juntar dinheiro e renovar meu visto por mais um ano. Paguei uma escola melhor e aí sim via o inglês evoluir.
Eu não tinha uma foto assim, então segue esta em homenagem
aos meus amigos Mocotó e Jesse, que me ajudaram bastante, para demostrar como era.
Dizem que é bom ter muitos conhecidos. Aqui, isso não funciona tão bem, mas todos os empregos que eu consegui foram graças a indicações. Depois de 20 dias que eu tinha saído do emprego de babá, uma amiga me indicou em um centro educacional e religioso. Fui fazer a entrevista e consegui um emprego de tipo garçonete e ajudante de cozinha. Era uma casa que moravam 20 mulheres ligadas ao Opus Dei, então eu cuidava e servia o jantar delas e depois limpava a cozinha. Trabalhava quatro horas por dia no final da tarde.
E simultaneamente a este trabalho, depois de muito tentar, consegui uma vaga para cobrir férias na entrega do Jornal Metro/Herald. Depois de um mês, cada dia em um posto de entrega diferente consegui um ponto fixo para mim. Trabalhava numa estação do Luas (uma espécie de trem, só que mais modernizado, parecido com o metro e a céu aberto) e entregava cerca de 600 jornais por dia. Este trabalho era ótimo, apesar de acordar às 5 da manhã.
Trabalhava até ás 9h e depois ia direto para a escola até às 13h. Ia para casa, almoçava, descansava e às 15h saia para o outro. Mas o bom aqui é que fiz amizade com o povo que descia do trem e os carros que paravam no farol. Conversava, trocava experiências e até quando eu saí ganhei presente do pessoal. Sinto falta dessa época: era jornaleira, hehehe.
Eu não ganhava rios de dinheiro, porque tinha que pagar o aluguel, as contas, comer e pagar os estudos, mas já conseguia planejar as viagens e realizá-las.  Isso foi muito gratificante. Depois de tantos perrengues, estava conseguindo concretizar muitos sonhos.
Eleita merchandising do mês!
Ás vezes olhava para trás e me perguntava: cara, por que eu tinha demorado tanto para fazer isso? E, logo vinha a frase: não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje! Realmente o intercâmbio, aprender uma língua estrangeira no exterior faz muito a diferença.
Então, agora posso dizer que estou bem e dar conselhos e ajudar. Não é nenhum fim do mundo e todo mundo pode sobreviver com pequenos sacrifícios em busca da sua realização pessoal. Valeu a pena tudo o que passei nestes dois anos de Irlanda: viajei, gastei, falei, vivi, sobrevivi! Não trouxe dinheiro comigo, mas minha bagagem de conhecimento continua pesada. 😀

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